Momentos de saudades

E existem momentos, que tudo volta, que tudo se repete em minha mente. A notícia, as lágrimas, o funeral e a despedida eterna. Levo minha vida normal. Mantenho uma rotina cheia, para não me perder nestes pensamentos. Mas… Quando eu menos espero, eles voltam com tudo, assombrando-me. Lágrimas insistem em encher os meus olhos de um brilho triste. Um brilho que um dia já foi feliz, por ela.
Lembro-me daquele pensamento que me rondava naquele dia antes de tudo acontecer: – Ufa! Ela está em casa de novo.

Pudera eu saber que esta estadia seria a sua despedida eterna? Lembro-me apenas de tê-la dado um beijo no rosto, e repetido o “tchau mãe”, duas vezes. Fui trabalhar, satisfeita por tê-la em casa de novo, depois de um mês de idas e vindas de internações.

Mas, ainda tinha uma coisa que me chateava: eu sabia que ela não estava feliz. Ela estava sofrendo, física e psicologicamente. Sabia também que isto seria um longo caminho a percorrer, até que as coisas melhorassem, mas, eu sonhava com isso.

Trabalhei aquele dia inteiro normal, como se nada fosse, afinal, ela tinha recebido alta. Porém, tinha algo que havia me encucado – Alguma coisa está errada – pensei. Não sabia ao certo o por quê nem o quê. Só sabia que aquela semana seria marcada por algum motivo.

No domingo anterior, eu ainda havia ido no hospital vê-la. Chorei muito vendo o seu sofrimento, depois que saí dali. Ela dizia – Eu preciso ir embora filha, não aguento mais 🙁

Tentei me convencer de que ia melhorar, mas… Algo ainda dizia pra mim que não seria dessa forma.

Continuei aquela semana de pé, enfrentando aquela voz dentro de mim e a ignorando de todas as formas. Pudera eu saber que aquela voz irritante estava falando algo de coerente naquele momento.

No entanto, chega o dia. Recebo a notícia em meu trabalho e absurdamente me desespero. Nunca havia sentido tanta dor. Eu chorava, berrava. Eu não sabia nem a quem correr. Já que normalmente correria até ela.

As lágrimas não cessavam, e a última coisa da qual eu queria era ir para casa. Fiquei lá, no colégio esperando meu namorado chegar. Ele chegou. Eu desabei mais uma vez, nos braços dele, e implorei para que me levasse até sua casa. E fui.

Lá, consegui me silenciar, não me acalmar, porque eu estava muito longe disso: estar calma. Dentro de mim ainda havia uma cratera gigante e dolorida que me revirava os pensamentos.

Em silêncio, ainda corriam lágrimas em minha face. E então, fui para minha casa.

Lá, estavam meus irmãos e meu pai a minha espera. Bastou uma troca de olhares para todos desabarem juntos. Ninguém sabia o que fazer. Ninguém sabia a quem recorrer.

Eu ainda estava tentando me convencer de que tudo não passava de um mal entendido, porém, bastou eu entrar na cozinha e me deparar com a papelada da funerária para que todas as fantasias de supostos enganos que eu inventei desaparecessem em um só segundo. Foi o terror mais assombroso que vivi.

Apenas sentei, refleti em silêncio e… Sofri.

Percebi que todo mundo tentava demonstrar uma força a mais, talvez para o elo não se despedaçar ali. Mas, os olhos de todos indicavam: e agora?

O velório então? O que falar desse momento? Quando cheguei à igreja e me deparei com o caixão dela no centro foi mais uma prova: é para sempre. Chorei mais uma vez desesperada. Eu queria que fosse apenas um pesadelo.

Lembro de estar em transe, sentada naquele banco, olhando pro nada, pensando no nada que a vida pode se tornar sem alguém. Nessa hora chega minhas colegas de faculdade, e conseguem iluminar-me um pouco que fosse.

Sou eternamente grata a elas, sei o quanto foi importante para mim essa demonstração de carinho incrível.

Porém, tiveram que ir, e eu fiquei lá, madrugada a dentro outra vez com meus pensamentos pesados de melancolia.

Amigos apareceram, parentes também, até gente que eu nem conhecia. Mas que eu esperava que aparecesse não apareceu. Estava ali, sendo velada.

A madrugada entrou, o tempo passou. Fui para casa e adormeci. Amanheceu – O desespero me engoliu de novo.

COMO ASSIM EU NÃO TENHO MAIS MÃE? Era o que eu perguntava aos prantos, e aos berros. Sua imagem dentro do caixão não me escapava aos olhos um segundo sequer. Eu estava pirando.

Fui ao enterro, e digo: a hora que o caixão fecha, o seu coração dói tanto que parece que você nem consegue respirar. Parece que ele vai parar. Parece que ele vai pular lá dentro, com a pessoa amada.

Tudo acabou. Amigos e familiares foram embora, e meros “conta comigo” também. Era apenas papo furado de quem não sabia como confortar, eu sei. Pois hoje em dia todos sumiram.

Continuei minha vida. Continuei na faculdade, no trabalho, no blog. Continuei sorrindo, realizando sonhos, seguindo. Continuei sendo eu, mas diferente: levo ela comigo aonde quer que eu vá.

Faço as coisas imaginando o que ela diria e como ela faria. Ela faz parte de mim agora. Se foi, mas uma parte ficou em mim.

Deixo ela guardadinha lá dentro, mas como ela era desobediente as vezes essa parte quer aparecer e mostrar que ainda existe – mostrar que ainda vive – e ela aparece, quando bem entende. É aí que eu choro, ela adora vir em formato de lágrimas.

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